Cansei de tentar entender tudo, as situações, as pessoas, os
sistemas, as cidades, as universidades, etc. Cansei de tentar me inteirar
prontamente sobre o assunto e ainda assumir e expor uma opinião. Cansei de ter
opinião pra tudo. Cansei de me mostrar, cansei de pesquisar, cansei de ler,
cansei de buscar, cansei de desejar, cansei de estar o tempo todo em movimento.
Agora estou mais suave, mais serena, menos eufórica, menos curiosa, mais
paciente, mais observadora, menos falante. Estou mais leve. Estou mais Feliz. As coisas continuam
seguindo seus caminhos, as pessoas continuam agindo baseadas em seus
interesses. Não preciso alterar nada. Não sinto mais tanta vontade de mudar as
pessoas, as coisas, os sistemas. Estou "deixando rolar". Continuo seguindo
o meu caminho, cumprindo com as obrigações que assumi como compromisso.
Mas numa postura mais resignada e resiliente. Cansei até de
viajar e ficar apontando defeitos dos lugares, dos sistemas turísticos, das
organizações sociais. Agora continuo viajando, mas observando sem o dedo que
aponta e critica. Sinto o que posso, aproveito o que há de bom, vejo o que acho
que está errado e tento entender, mas sem me estressar ou procurar os culpados.
Não saio falando mal de lugares nem de pessoas. Tento só abrir a boca para
falar bem, ou às vezes nem abro a boca.
Essa nova pessoa que vos fala até me agrada. Foi um longo e
árduo caminho para chegar até aqui. Sofri, chorei, sorri, me esbaldei, me
joguei, amei, confiei, me decepcionei, errei, corrigi, virei páginas, recebi
amor, recebi indiferenças, mas, acima de tudo, aprendi. Aprendi até que embora
viajar seja maravilhoso, é bom ter um lar, um canto, um porto seguro, um alguém
esperando o nosso retorno. É bom ter alguém para chamar de família, mesmo que
seja o animal de estimação, ou o melhor amigo, ou o amor, ou um vizinho velho
que a gente gosta. É importante ter alguém com quem contar incondicionalmente e
a quem a gente se doe incondicionalmente também. É bom circular, voar, mas é
bom carregar consigo uma paz e uma Liberdade tão sólidas que ninguém consegue
nos tirar. É bom conseguir estar num resort 5 estrelas, ou em qualquer lugar
chiquérrimo, ou estar num casebre na roça, de pessoas analfabetas, mas que a
gente ama. É bom experimentar tudo, mas conseguir estar bem em qualquer lugar,
seja em qualquer banquete ou miojo puro.
É bom carregar uma luz dentro de si de tal forma que tudo em
volta parece melhor, que nada consegue jogar pra baixo. Não nos afetarmos por
problemas dos outros, como incompreensões, por confusões, por sofrimentos, por
sentimentos baixos ou por qualquer motivo. Compadecermos sim, ajudarmos sim,
chorarmos juntos se for preciso, mas sem apagar a luz do amor, da esperança, da
fé que diz tudo de ruim vai passar e dias melhores virão em breve. É importante
desapegar. Desapegar de tudo: de material e imaterial, de bom e de ruim. É
importante deixar as coisas passarem, afinal, tudo é emprestado, nada é
definitivo.
Estou ficando velha, experiente, madura, ou o nome que
quiserem dar. Mas sinto que a vida dá e cobra, que a vida flui como o tempo que
não pára e que tudo pode ser tudo, inclusive nada. Enfim, estamos todos no
mesmo barco, todos seguindo sua caminhada evolutiva individual e coletiva.
Tendo novas chances de fazer tudo melhor, de errar de novo, de corrigir de novo
e até de praticarmos o egoísmo de virarmos as costas para o mundo e vivermos
isolados num mundinho particular. Podemos tantas coisas! Mas seguir o caminho
do bem é mais rico, mais honesto e mais gratificante no final. Muitas vezes
mais trabalhoso e doloroso, mas com certeza dá uma paz de espírito tão grande
que faz valer a pena todo o esforço. (Consciência tranquila é melhor que
qualquer prazer terreno.)
Hoje recebi notícia da morte de duas pessoas. Poderia ser
eu. Fiquei a pensar: "Se fosse eu será que minha existência fez alguma
diferença neste mundo? Será que alguém sentiria minha falta? Será que amei o
suficiente? Será que me doei o suficiente? Será que fui grata o suficiente?
Será que perdoei o suficiente? Será que fui perdoada pelos meus erros? Será que
minha vida valeu a pena?" Não tenho essas respostas. Mas só o fato de me
questionar já me ajudaram a cuidar melhor dos meus pensamentos, minhas palavras
e minhas atitudes. Espero que eu seja um ser humano um pouquinho melhor a cada
dia. Que Deus me leve no momento em que Ele achar melhor, e que minha passagem
por este plano tenha valido a pena e feito alguém feliz.
(Desculpem, sei que facebook não é lugar de chorar as
pitangas, afinal, é lugar de mostrar fotos bonitas e fingir que tudo é bom. Ou,
reclamar de política, do clima ruim, ou de futebol, ou de qualquer coisa. Mas
hoje em especial senti vontade de chorar pitangas em público. Se não gostaram,
sem problemas: só me excluir ou bloquear. Não vou sofrer, nem brigar, nem mesmo
ficar sabendo.)
JP 24/4/2014